19/01/2025

As emoções de acompanhar um autista

Ser pai ou mãe de uma criança com autismo é viver em uma montanha-russa emocional. Navegamos sentimentos, às vezes contraditórios, que nos levam da angústia à esperança, da alegria ao medo... tudo isso no mesmo dia. Quero falar um pouco dessas emoções porque sei que todos nesse barco já as sentiram de forma muito intensa.

As angústias e os medos
Eu me lembro bem da angústia de perceber que minha filha não atingia os marcadores de desenvolvimento esperados, antes mesmo de termos um diagnóstico. Enquanto outras crianças começavam a falar, brincar em grupo ou demonstrar certos comportamentos, eu via minha pequena se afastar desses marcos e me perguntava o que estava acontecendo. A sensação de incerteza era sufocante.
E então veio a dor do preconceito. Nada machuca mais do que perceber que o mundo pode ser tão duro com quem amamos. Às vezes, o preconceito vem de estranhos. Outras vezes, vem de quem está perto, disfarçado de “conselhos” ou “opiniões”. O que me parte o coração é saber que, em algum momento, minha filha também percebe. Ele nota os olhares, as palavras, os gestos.
Outro momento difícil é quando ela tenta fazer algo e não consegue. Vejo a frustração em seus olhos, e sinto o peso de sua dor como se fosse minha. Nessas horas, tudo o que eu queria era poder resolver o mundo para ela, afastar os desafios, tornar tudo mais fácil.
E, claro, o medo pelo futuro está sempre lá, como uma sombra persistente. Será que ela vai conseguir ser independente? Ter um emprego? Cuidar de si mesma?  Como será quando ela se apaixonar? Será que ela será compreendida ou será enganada por pessoas que deveriam acolhê-la e protegê-la? E quando eu não estiver mais por aqui, como será a vida dela? A gente nem pode morrer em paz, né?
Às vezes o medo tenta sufocar a esperança de um bom futuro... mas é aí que me esforço a pensar que o futuro ainda não aconteceu, e o que fazemos hoje pode mudar muita coisa.

As pequenas grandes alegrias
Também existem muitas alegrias nessa jornada. Elas podem ser pequenas para os outros, mas para nós, são gigantescas. A primeira vez que ela leu uma frase sozinha. O dia em que ela conseguiu escrever uma página no seu diário contando algo que tinha ocorrido com ela. Aquele momento em que ela compreendeu uma piada ou fez uma pergunta que mostrou que estava pensando de forma abstrata. Esses avanços são motivo de festa, porque sabemos o quanto cada um deles é fruto de muito esforço e dedicação.
E a alegria das amizades? Ah, quando ela faz uma amizade genuína, é difícil segurar a alegria. Saber que ela tem alguém que gosta dela pelo que é, que a vê como um igual, é uma sensação que não tem preço.
Também há a felicidade de vê-la realizar algo desafiador, algo que ela mesma talvez achasse que não seria capaz. Nessas horas, percebo que ela é muito mais forte do que eu imaginava, e me sinto grato por acompanhar o seu desenvolvimento.

Focar no presente e acreditar no futuro
Aprendi que é importante não deixar o medo pelo futuro dominar. Focar no presente é o que nos dá força. Porque é no hoje que podemos fazer a diferença, que podemos incentivar nossos filhos, ajudá-los a crescer e conquistar autonomia.
Não é fácil, mas acredito profundamente no potencial de minha filha. E, sim, isso exige esforço, exige dedicação... Mas também exige fé na sua capacidade, nos profissionais que a atendem, no nosso trabalho e amor.
Não sei como será o futuro, mas estou aqui para preparar minha filha para ele e isso basta! Hoje ela está aprendendo, se desenvolvendo, crescendo... um passo de cada vez.
Teremos momentos bons e momentos difíceis... mas cada etapa é importante: tudo vai dar certo, do jeito que for possível.

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