Li recentemente o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt. Confesso que, antes de ler, tinha preconceito com o livro. Vinha acompanhando as discussões sobre o livro e achava que podia ser apenas um texto de quem estava ficando velho, não acompanhava as mudanças no mundo e apontava o dedo acusador para os mais jovens: "Essa geração está perdida!". Ou alguém que tem medo de tecnologia... Alguns colegas de trabalho fizeram bons comentários sobre o livro e, ainda desconfiado, resolvi ler.
O autor fala das mudanças na forma de se viver a infância e, principalmente, do impacto da vida hiperconectada. Estamos constantemente ligados às redes sociais com dispositivos que nos acompanham o tempo todo. Para piorar, o "algoritmo" nos entrega conteúdos personalizados, usando de mecanismos psicológicos para capturar nossa atenção durante o maior tempo possível.
Segundo o autor, isso nos impacta a todos, mas principalmente a crianças e adolescentes. Amparado por pesquisas de longo prazo, ele indica um aumento no adoecimento de crianças e adolescentes a partir de meados da década de 2010 em escala global. Ele correlaciona esse adoecimento com a disseminação de smartphones e mudanças significativas nas redes sociais que ocorreram 2 ou 3 anos antes. Haidt defende que as redes sociais deveriam ser liberadas apenas para maiores de 16 anos, permitindo algum amadurecimento psicológico anterior.
Mas o que mais me chamou a atenção nesse livro foi o relato da mudança social que já estava em curso antes do smartphone ser lançado: o fenômeno da superproteção das crianças no mundo real versus nenhuma proteção no mundo digital. Neste texto, vou me ater à superproteção no mundo real.
Somos pais cuidadosos e é natural que queiramos proteger nossos filhos. Nos escondemos dentro de condomínios, trancamos as portas, os enchemos de dispositivos eletrônicos para que eles possam se divertir em casa, em segurança. A ideia é evitar riscos a todo custo.
Acho que com a disseminação de notícias, especialmente as ruins, desconfiamos de tudo e de todos. Nós, que brincamos na rua com a criançada da vizinhança, não permitimos que nossos filhos façam o mesmo e criem "casca" para enfrentar a vida em sociedade.
Haidt advoga que as crianças precisam correr riscos para desenvolver sua autonomia. E que naturalmente a criança procura riscos gradualmente, retornando à segurança da proximidade com os pais quando se sente ameaçada. Para o autor, é importante o brincar livre, para que surjam as dificuldades, os conflitos e essa criança amadureça. Ou seja... nada de ser um fiscal de parquinho!
O autor ainda vai mais longe: pergunta com quantos anos nós saíamos na rua sozinhos para ir à escola, ao mercadinho do bairro ou mesmo brincar? E com qual idade achamos que nossos filhos estarão maduros o suficiente para ter essa autonomia? Normalmente a diferença de idade será significativa.
Nosso papel como pais é proteger, sim. Mas acima de tudo, precisamos ajudar nossos filhos a se desenvolverem e aprenderem a se virar sem a gente. Não podemos ter a vaidade de querer ser necessários para sempre. Afinal, um dia nós não estaremos mais por aqui...
Acredito que é preciso um pouco mais de cautela para criar uma criança neurodivergente. Ainda assim, precisamos pensar em oferecer a maior autonomia possível. É preciso confiar que nossos filhos serão capazes. E se ainda não conseguirem se virar, dar a confiança e o incentivo para tentarem novamente.
Há alguns meses, tirei as rodinhas da bicicleta de minha filha com autismo. Para ela se sentir mais confiante, providenciei capacete, luvas, joelheiras e cotoveleiras. Usei a técnica da toalha* para dar sustentação ao tronco e corria a seu lado orientando sobre deixar a barriguinha dura, olhar lá no final da rua, ganhar velocidade... haja fôlego!
Depois de algum tempo, percebi que ela já estava bem o suficiente para tentar sozinha, mas o medo de soltar a bicicleta era todo meu. E se ela cair e não quiser mais tentar? E se ela se machucar? Tem uma hora que a gente precisa soltar a bicicleta! Não é fácil saber qual é esse momento, mas a gente precisa confiar no trabalho que fizemos e, principalmente, na capacidade de nossos filhos. Nossos filhos vão cair, vão se machucar. Isso faz parte do amadurecimento: é preciso saber cair, levantar e seguir.
* Enrolar uma toalha no tronco da criança e a segurar por trás. Permite que a criança tenha sustentação, mas dá liberdade de movimentos para ela aprender a ter equilíbrio sozinha.
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