28/09/2025

A hora de soltar a bicicleta (sobre o livro A Geração Ansiosa)

Li recentemente o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt. Confesso que, antes de ler, tinha preconceito com o livro. Vinha acompanhando as discussões sobre o livro e achava que podia ser apenas um texto de quem estava ficando velho, não acompanhava as mudanças no mundo e apontava o dedo acusador para os mais jovens: "Essa geração está perdida!". Ou alguém que tem medo de tecnologia... Alguns colegas de trabalho fizeram bons comentários sobre o livro e, ainda desconfiado, resolvi ler.

O autor fala das mudanças na forma de se viver a infância e, principalmente, do impacto da vida hiperconectada. Estamos constantemente ligados às redes sociais com dispositivos que nos acompanham o tempo todo. Para piorar, o "algoritmo" nos entrega conteúdos personalizados, usando de mecanismos psicológicos para capturar nossa atenção durante o maior tempo possível.

Segundo o autor, isso nos impacta a todos, mas principalmente a crianças e adolescentes. Amparado por pesquisas de longo prazo, ele indica um aumento no adoecimento de crianças e adolescentes a partir de meados da década de 2010 em escala global. Ele correlaciona esse adoecimento com a disseminação de smartphones e mudanças significativas nas redes sociais que ocorreram 2 ou 3 anos antes. Haidt defende que as redes sociais deveriam ser liberadas apenas para maiores de 16 anos, permitindo algum amadurecimento psicológico anterior.

Mas o que mais me chamou a atenção nesse livro foi o relato da mudança social que já estava em curso antes do smartphone ser lançado: o fenômeno da superproteção das crianças no mundo real versus nenhuma proteção no mundo digital. Neste texto, vou me ater à superproteção no mundo real.

Somos pais cuidadosos e é natural que queiramos proteger nossos filhos. Nos escondemos dentro de condomínios, trancamos as portas, os enchemos de dispositivos eletrônicos para que eles possam se divertir em casa, em segurança. A ideia é evitar riscos a todo custo.

Acho que com a disseminação de notícias, especialmente as ruins, desconfiamos de tudo e de todos. Nós, que brincamos na rua com a criançada da vizinhança, não permitimos que nossos filhos façam o mesmo e criem "casca" para enfrentar a vida em sociedade.

Haidt advoga que as crianças precisam correr riscos para desenvolver sua autonomia. E que naturalmente a criança procura riscos gradualmente, retornando à segurança da proximidade com os pais quando se sente ameaçada. Para o autor, é importante o brincar livre, para que surjam as dificuldades, os conflitos e essa criança amadureça. Ou seja... nada de ser um fiscal de parquinho!

O autor ainda vai mais longe: pergunta com quantos anos nós saíamos na rua sozinhos para ir à escola, ao mercadinho do bairro ou mesmo brincar? E com qual idade achamos que nossos filhos estarão maduros o suficiente para ter essa autonomia? Normalmente a diferença de idade será significativa.

Nosso papel como pais é proteger, sim. Mas acima de tudo, precisamos ajudar nossos filhos a se desenvolverem e aprenderem a se virar sem a gente. Não podemos ter a vaidade de querer ser necessários para sempre. Afinal, um dia nós não estaremos mais por aqui...

Acredito que é preciso um pouco mais de cautela para criar uma criança neurodivergente. Ainda assim, precisamos pensar em oferecer a maior autonomia possível. É preciso confiar que nossos filhos serão capazes. E se ainda não conseguirem se virar, dar a confiança e o incentivo para tentarem novamente.

Há alguns meses, tirei as rodinhas da bicicleta de minha filha com autismo. Para ela se sentir mais confiante, providenciei capacete, luvas, joelheiras e cotoveleiras. Usei a técnica da toalha* para dar sustentação ao tronco e corria a seu lado orientando sobre deixar a barriguinha dura, olhar lá no final da rua, ganhar velocidade... haja fôlego!

Depois de algum tempo, percebi que ela já estava bem o suficiente para tentar sozinha, mas o medo de soltar a bicicleta era todo meu. E se ela cair e não quiser mais tentar? E se ela se machucar? Tem uma hora que a gente precisa soltar a bicicleta! Não é fácil saber qual é esse momento, mas a gente precisa confiar no trabalho que fizemos e, principalmente, na capacidade de nossos filhos. Nossos filhos vão cair, vão se machucar. Isso faz parte do amadurecimento: é preciso saber cair, levantar e seguir.


* Enrolar uma toalha no tronco da criança e a segurar por trás. Permite que a criança tenha sustentação, mas dá liberdade de movimentos para ela aprender a ter equilíbrio sozinha.

25/09/2025

O filho eterno (livro)

Ser pai de uma criança com autismo significa que você vai passar algumas boas horas por semana em salas de espera. E se você não tem como trabalhar remotamente, você tem que se virar para passar o tempo... o celular é companheiro da maioria. Mas tem gente que borda, que fica de conversa... eu redescobri a leitura.

Não que eu não lesse. Mas normalmente era alguma coisa relacionada ao estudo ou trabalho. Leituras técnicas. Nas salas de espera voltei a ler coisas bem diversas e foi muito bom!

O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, foi um desses livros. Acho que se tivesse que descrevê-lo em uma palavra, usaria "peculiar".

O livro é autobiográfico. O autor conta sobre sua relação com seu filho que tem síndrome de Down. É desconcertante a autenticidade e crueza com que narra seus sentimentos e pensamentos intrusivos em relação à sua vida, sua família e, em especial, seu filho. Não é um livro "bonitinho".

Por exemplo, logo no nascimento de seu filho e com a notícia de ter síndrome de Down, ele se apega aos possíveis problemas de saúde que levavam à baixa expectativa de vida dessas pessoas... Não por medo de perder seu filho, mas como uma solução para esse "problema". Sim, ele enxergava o próprio filho como um problema. Também há alguns momentos em que espera uma cura milagrosa ou um doutor que negue a condição de seu filho.

O autor parte de uma visão egocêntrica, falando sobre todo seu potencial não desenvolvido até então como escritor (colecionava recusas na publicação de seus textos), sobre depender financeiramente de sua esposa (um fracasso muito significativo para um homem nos anos 70 e 80) e da vergonha de ter um filho com deficiência, frente aos olhares penalizados da família e amigos. As histórias da criação de seu filho são entremeadas por outros momentos de sua vida, como a adolescência e juventude. Às vezes a gente demora a perceber que houve um corte temporal.

Com o tempo o pai vai amadurecendo, criando laços afetivos com seu filho, assumindo suas responsabilidades na rotina - comandada pela sua esposa, essa sim, uma heroína quase invisível na narrativa.

Ao final, o pai enxerga o filho com suas limitações, mas também suas capacidades. Percebe suas melhores qualidades - "o mundo dos afetos é o talento dessa criança". O filho real, sem idealizações!

Acho que o autor consegue despertar vários sentimentos nos leitores, o que já é um grande feito. Confesso que no início achei o livro repugnante. Fiquei com raiva e nojo desse pai merda... Mas também percebi que é preciso muita coragem para aceitar suas sombras. E quem não as tem?

Acredito que aceitar nossas imperfeições é importante. E contemplar a vida, mesmo em momentos difíceis, nos ajuda a seguir em frente e sermos pessoas melhores. Ao final, criei até uma simpatia pelo pai desajeitado que se manteve presente.


Obs. 1: Achei interessante que o livro retrata o início do oferecimento de terapias especializadas no Brasil, que ainda engatinhava. Hoje as informações circulam mais e a disponibilidade de profissionais  aumentou. Nessa perspectiva, a vida de uma família com uma criança neurodivergente é mais fácil que naquela época.


Obs. 2: O livro tem vários "passarinhos soltos" que às vezes pousam nos nossos dedos: "ponha o pé num avião, ele concluiu - e desaparecemos" ou  "a ideia do tempo - não, a presença física do tempo mesmo - só é percebida integralmente quando o próprio tempo, de fato, começa a nos devorar". Há algumas tantas ideias como essas ao longo do livro, que são material para longa reflexão.

A hora de soltar a bicicleta (sobre o livro A Geração Ansiosa)

Li recentemente o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt. Confesso que, antes de ler, tinha preconceito com o livro. Vinha acompanhando ...