19/02/2025

Aprendendo a ser gente: o que minhas filhas me ensinaram sobre a vida

Quando me tornei pai, eu carregava aquela certeza ingênua de que seria eu quem ensinaria minha filha a "ser gente". Afinal, era assim que eu imaginava a parentalidade: os pais e as mães sabem tudo, e os filhos aprendem com eles. Mas a vida, como sempre, tinha outros planos. E foi através das minhas filhas que eu comecei a entender que ser "gente" não é algo que se ensina de forma unilateral. É uma troca constante, um processo que nos transforma tanto quanto transforma aqueles que cuidamos.  

No início, eu achava que tinha todas as respostas. Eu sabia (ou pensava que sabia) como as coisas deveriam ser. Mas cada dia ao lado das minhas filhas foi quebrando minhas certezas, confrontando minhas vaidades e me fazendo repensar valores que eu nem sabia que carregava. Aprendi que ser pai/mãe não é sobre ter todas as respostas, mas sobre estar disposto a fazer perguntas - algumas incômodas - para os outros e para si mesmo.  

Aprendo muito com minhas duas filhas e, às vezes, minha filha neurotípica é mais desafiadora do que a autista. De maneira geral, falarei sobre ser pai e, respeitando o tema desse blog, vou falar um pouco sobre especificidades de ser pai de uma criança com autismo...

A educação que nunca tivemos

Uma das maiores lições que aprendi é que nós, adultos, não fomos educados para conviver. Sim, aprendemos matemática, história, ciências... mas ninguém nos ensinou como lidar com as emoções, como impor limites com respeito, ou como construir relacionamentos saudáveis. Principalmente nós, homens, fomos criados em uma cultura que valoriza a razão e a autossuficiência acima de tudo, enquanto nossas emoções e fragilidades ficam relegadas a um segundo plano. Mas elas ainda estão lá...

Assisti à série Amor no Espectro e me surpreendi com a sensibilidade com que as pessoas neurodiversas são guiadas em seus encontros amorosos, alguns em seus primeiros encontros! Eles aprendem a demonstrar interesse pelo outro, a buscar afinidades, a entender o que é um relacionamento respeitoso. E, enquanto assistia, pensei: Por que isso não é ensinado a todo mundo? A verdade é que a maioria de nós nunca teve uma educação emocional. Na escola nos ensinaram muitos conteúdos e fomos treinados para produzir, para competir e para ter sucesso – mas não para nos relacionarmos, para cuidar, para ouvir e para amar.  

Sair do centro do nosso mundo e ampliar o repertório

Outra coisa que minhas filhas me ensinaram é a olhar para fora, para o outro. Elas têm interesses únicos, paixões que eu nunca teria explorado por minha iniciativa. E, ao me dedicar a entender o que as move, eu acabei descobrindo novas perspectivas, novos jeitos de ver o mundo. Aprendi que o repertório da vida não se limita ao que já conhecemos – ele se expande quando nos permitimos olhar para o outro com um interesse genuíno.  

O aprendizado não é uma via de mão única. Enquanto eu tentava ensinar minhas filhas a navegar pelo mundo, elas me ensinavam a enxergá-lo com outros olhos. E, nesse processo, descobri que o conhecimento técnico-científico, dos livros, é importante, mas não é o suficiente. A capacidade de se conectar com o outro, de se colocar no lugar do outro, de respeitar o outro em sua singularidade é fundamental para nossa própria realização como ser humano.

A paciência e o tempo dos processos

Talvez o maior desafio tenha sido aprender a ter paciência. Minhas filhas me mostraram que o crescimento não é linear. Ele vem cheio de idas e vindas, erros e acertos, rearranjos e recomeços. E, no meio desse processo, eu tive que aprender a respeitar o tempo delas – e, consequentemente, o meu próprio.  

Aprendi também que nem tudo precisa ter uma finalidade ou uma utilidade. Nossa cultura nos ensina a buscar resultados, a medir sucessos, a justificar cada ação com um propósito. Mas há beleza no simples existir, no estar presente, no viver sem pressa. Nem tudo precisa ser produtivo para ser valioso.  

Ser gente é um processo contínuo

Hoje, eu vejo como ser pai me transformou. Minhas filhas não só me ensinaram a ser um pai melhor, mas também a ser uma pessoa melhor. Ser "gente" é um aprendizado e uma metamorfose contínuos, nem sempre linear e perfeito. Às vezes temos que abraçar o caos e nossa imperfeição.

A hora de soltar a bicicleta (sobre o livro A Geração Ansiosa)

Li recentemente o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt. Confesso que, antes de ler, tinha preconceito com o livro. Vinha acompanhando ...