(Antes deste texto, preciso fazer uma observação: em alguma medida, sou uma pessoa privilegiada. Coisas que falarei aqui não são opção para boa parte da população, mas uma realidade que se impõe.)
Ler Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, foi um soco no estômago! O autor descreveu uma grande angústia que eu sinto, mas não sabia explicar. Descobri que não estou apenas cansado – estou esgotado de ser o "gerente de minha própria existência".
O que temos de mais precioso, o tempo, virou moeda que gastamos sem perceber, entre compromissos que se multiplicam, e deixamos de usufruir nossa vida, viver e conviver.
O paradoxo? No meio dessa loucura, descobri que meu trabalho – justamente o lugar que deveria ser fonte de exaustão – tornou-se meu refúgio. Lá, pelo menos, as regras são claras: hora para entrar, para sair, o trabalho a ser realizado é bem definido... Mas e o resto? A vida virou uma planilha.
Precisamos ser produtivos em todas as esferas da vida: trabalho, saúde, lazer... Temos uma agenda mínima de exercícios para fazer, nos esforçar para bater metas de tempo, peso, constância; devemos comer alimentos saudáveis, nas quantidades exatas, com um intervalo máximo entre as refeições e é prudente contar as mastigações; nosso lazer se tornou compromisso, com hora marcada; precisamos fazer a manutenção das amizades; os hobbies não são mais relaxados, precisamos ir à perfeição; até o descanso ficou parametrizado, pois temos metas de horas de sono, posição certa para dormir, suplementos e medicamentos para dormir melhor.
Nosso corpo virou uma fábrica e nossa vida uma linha de produção, com variáveis a se controlar.
Hoje há relógios inteligentes (será?) para monitorar batimentos cardíacos, tempo e esforço da atividade física, horas e qualidade do sono... e temos que compartilhar tudo isso em nossas redes sociais! Não basta fazer, temos que mostrar o nosso sucesso como empresários de nós mesmos.
A vida capitalista/industrial nos desumaniza, nos torna máquinas, matéria-prima e produto. E não há saída!(?) Como nos desvencilhar desse novo modo de vida?
Claro que a rotina como pai de criança com autismo acentua esse processo. Temos toda uma jornada de terapias e suporte nas atividades escolares e do dia-a-dia a cumprir. Estamos sempre atrasados, correndo atrás de... eu já nem sei. Percebi que ainda jogo minhas filhas para esse modo de vida fadado ao adoecimento.
Aqui ecoa o que já escrevi antes: estamos tão ocupados cuidando que esquecemos como simplesmente estar. Aprendi com minha filha que os melhores momentos surgem nos intervalos não programados – quando abrimos mão do cronograma para realmente conviver. Sabe aquela hora que você já está atrasado mesmo e que não adianta correr? Relaxe e aproveite esse tempinho...
As mesmas redes que me mostram "como ser um pai melhor" são as que me fazem questionar: por que transformamos até o amor em checklist? Por que cada abraço precisa ser "terapêutico", cada brincadeira "estimulante"?
Precisamos usufruir de momentos preguiçosos, sem preocupação com o horário ou alguma meta e objetivo. Precisamos usufruir da dádiva que é estarmos vivos! Sim, viver é uma dádiva, independente de acreditarmos ou não em um Deus. A vida é muito preciosa e a recebemos como um presente.
O bem-viver é uma saída?
Recentemente descobri o “bem-viver”, um conceito aprendido com os povos andinos (buen vivir). É uma filosofia de vida ancestral que não prega a produtividade, mas a convivência, a harmonia – com as pessoas, com a natureza e consigo mesmo.
Não é romantizar a pobreza ou negar os avanços de nossa ciência. Se trata mais de questionar a troca do viver pelo desempenhar. Não me parece correto transformarmos a vida numa dívida eterna de metas.
Como diz Han, o cansaço contemporâneo não vem do excesso de esforço, mas da exaustão de sermos nós mesmos nosso maior patrão. Talvez a verdadeira revolução seja deixar de ser CEO da própria existência e voltar a ser simplesmente... humano.
Depois de toda essa reflexão, uma pequena lista (resquícios de uma mentalidade produtivista) de pequenos atos de rebeldia:
- Não usar o relógio “inteligente”.
- Não encher a agenda de compromissos - e tirar alguns que não fazem sentido.
- Viver dias fora do sistema: sem métricas, sem posts.
- Respirar fundo e aceitar quando se perde a agenda.