Se você é pai, mãe, ou simplesmente alguém atento ao mundo, já deve ter percebido que nunca se falou tanto em autismo. Não é só impressão: dados do CDC (Center for Disease Control and Prevention), dos Estados Unidos, mostram isso de forma inequívoca. No ano 2000, o índice era de 1 uma criança com autismo para cada 150 (cerca de 0,7%). Vinte e dois anos depois, o número saltou para 1 autista a cada 31 crianças até 8 anos: 3,2% da população! Esses dados foram coletados nos Estados Unidos, mas sua generalização para outros países é aceita pela comunidade científica.
A explicação mais comum para isso não está relacionada ao aumento no número de casos, mas no aumento do diagnóstico. Os critérios diagnósticos mudaram, o DSM-5 e a CID-11 agruparam condições diferentes sob o mesmo guarda-chuva do autismo, consolidando um novo entendimento sobre o assunto. Também houve o aumento do número de profissionais capacitados, que agora conseguem diagnosticar aquilo que passava batido. Em resumo, argumenta-se que no passado milhares de adultos e crianças simplesmente foram ignorados e hoje, felizmente, eles começam a aparecer nas estatísticas. Faz sentido! Mas será que é só isso?
Quem viveu a escola dos anos 80 ou 90 sabe: as salas de aula não eram lugares inclusivos. E não parece que, naquela época, havia por aí tanta criança com as características que hoje são atribuídas ao autismo. Vá lá puxar pela memória... Essas características não são sutis. Os comportamentos diferentes, as estereotipias, as dificuldades sociais, as crises sensoriais - tudo isso existia antes das mudanças no diagnóstico. Mesmo nos casos "leves" seria possível perceber que aquela pessoa não era o que hoje chamamos de neurotípica. Atualmente as salas têm múltiplas crianças autistas, quando antes isso era raridade absoluta. Onde estavam essas crianças? Todas estavam "escondidas" pelas famílias?
Provavelmente - e infelizmente - sim. Pelo fato de a sociedade e as escolas não serem acolhedoras essas crianças nem iam à escola ou, se fossem, a experiência devia ser tão traumática, que desistiam em pouco tempo. Também havia instituições especializadas na "educação especial", focadas em desenvolver habilidades para vida diária e socialização... na prática, essas crianças se isolavam do convívio social, normalmente com as interações restritas às próprias famílias. Por isso, quando a política educacional se tornou mais inclusiva, trazendo as pessoas com diferentes condições e necessidades para o ensino regular, houve uma percepção do aumento exagerado nos casos de autismo.
Numa conversa recente com uma amiga, ela apresentou uma hipótese simples, mas que me pareceu fazer sentido quando consideramos o quadro geral: "As pessoas estão tendo filhos muito mais tarde". Esse é o fator ambiental mais relevante em relação à prevalência do autismo e pode ser uma justificativa plausível para um aumento no número de autistas, para além do mero aumento dos diagnósticos ou da percepção social.
Nos últimos dias tenho ouvido muito sobre a correlação entre uso de paracetamol durante a gravidez e autismo. Apesar da identificação dessa correlação, os estudos ainda não identificaram um nexo de causalidade. Assumir que o paracetamol é o causador do autismo neste momento ainda é precipitado. É preciso que se estude mais a fundo a questão.
O discurso de quem trata o autismo como uma doença é problemático. Em primeiro lugar, traz um estigma desnecessário a quem já leva uma vida tão sobrecarregada. Além disso, se é uma doença, pode haver uma cura. Só que o autismo faz parte da construção da personalidade de quem o tem. A pessoa é daquele jeito, se relaciona com os outros e com o mundo dentro de suas características e deve ser aceita assim. Dizer que o autismo é uma doença e que pode ser curado significa, em certa medida, negar a identidade dessa pessoa.
É importante compreender os motivos da prevalência de autismo na nossa sociedade, mas não é isso que mais me tira o sono: essa grande quantidade de pessoas autistas chega à uma sociedade despreparada para os acolher e atender. A rede de saúde pública e de educação simplesmente não dão conta. Essas crianças - 3% da população - vão crescer, virar adultos. Vão precisar trabalhar, se sustentar, e contribuir com a sociedade...
E o trabalho em nossa sociedade não parece ter espaço para quem é neurodivergente. A avaliação da performance profissional usa critérios que excluem os autistas e o conceito de produtividade ignora que pessoas autistas podem ser excepcionais em suas áreas de interesse. É um desperdício de potencial humano.
Há uma pergunta que não silencia: o que é que a gente vai fazer com isso?