25/09/2025

O filho eterno (livro)

Ser pai de uma criança com autismo significa que você vai passar algumas boas horas por semana em salas de espera. E se você não tem como trabalhar remotamente, você tem que se virar para passar o tempo... o celular é companheiro da maioria. Mas tem gente que borda, que fica de conversa... eu redescobri a leitura.

Não que eu não lesse. Mas normalmente era alguma coisa relacionada ao estudo ou trabalho. Leituras técnicas. Nas salas de espera voltei a ler coisas bem diversas e foi muito bom!

O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, foi um desses livros. Acho que se tivesse que descrevê-lo em uma palavra, usaria "peculiar".

O livro é autobiográfico. O autor conta sobre sua relação com seu filho que tem síndrome de Down. É desconcertante a autenticidade e crueza com que narra seus sentimentos e pensamentos intrusivos em relação à sua vida, sua família e, em especial, seu filho. Não é um livro "bonitinho".

Por exemplo, logo no nascimento de seu filho e com a notícia de ter síndrome de Down, ele se apega aos possíveis problemas de saúde que levavam à baixa expectativa de vida dessas pessoas... Não por medo de perder seu filho, mas como uma solução para esse "problema". Sim, ele enxergava o próprio filho como um problema. Também há alguns momentos em que espera uma cura milagrosa ou um doutor que negue a condição de seu filho.

O autor parte de uma visão egocêntrica, falando sobre todo seu potencial não desenvolvido até então como escritor (colecionava recusas na publicação de seus textos), sobre depender financeiramente de sua esposa (um fracasso muito significativo para um homem nos anos 70 e 80) e da vergonha de ter um filho com deficiência, frente aos olhares penalizados da família e amigos. As histórias da criação de seu filho são entremeadas por outros momentos de sua vida, como a adolescência e juventude. Às vezes a gente demora a perceber que houve um corte temporal.

Com o tempo o pai vai amadurecendo, criando laços afetivos com seu filho, assumindo suas responsabilidades na rotina - comandada pela sua esposa, essa sim, uma heroína quase invisível na narrativa.

Ao final, o pai enxerga o filho com suas limitações, mas também suas capacidades. Percebe suas melhores qualidades - "o mundo dos afetos é o talento dessa criança". O filho real, sem idealizações!

Acho que o autor consegue despertar vários sentimentos nos leitores, o que já é um grande feito. Confesso que no início achei o livro repugnante. Fiquei com raiva e nojo desse pai merda... Mas também percebi que é preciso muita coragem para aceitar suas sombras. E quem não as tem?

Acredito que aceitar nossas imperfeições é importante. E contemplar a vida, mesmo em momentos difíceis, nos ajuda a seguir em frente e sermos pessoas melhores. Ao final, criei até uma simpatia pelo pai desajeitado que se manteve presente.


Obs. 1: Achei interessante que o livro retrata o início do oferecimento de terapias especializadas no Brasil, que ainda engatinhava. Hoje as informações circulam mais e a disponibilidade de profissionais  aumentou. Nessa perspectiva, a vida de uma família com uma criança neurodivergente é mais fácil que naquela época.


Obs. 2: O livro tem vários "passarinhos soltos" que às vezes pousam nos nossos dedos: "ponha o pé num avião, ele concluiu - e desaparecemos" ou  "a ideia do tempo - não, a presença física do tempo mesmo - só é percebida integralmente quando o próprio tempo, de fato, começa a nos devorar". Há algumas tantas ideias como essas ao longo do livro, que são material para longa reflexão.

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